27 maio 2026
Cadeias segregadas de fornecimento de soja e emissões do transporte: o caso do Brasil e da conformidade com o EUDR
Novo relatório estima que as emissões de gases de efeito estufa relacionadas à logística de um trader brasileiro de soja podem aumentar como consequência não intencional da conformidade com o EUDR. Embora isso não reduza os potenciais impactos das emissões decorrentes do uso da terra, o estudo destaca desafios importantes na concepção de sistemas de rastreabilidade que sejam ao mesmo tempo eficazes e eficientes do ponto de vista climático.
O Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) tem como objetivo prevenir o desmatamento ao exigir dados de geolocalização, rastreabilidade completa e comprovação documentada de conformidade para determinadas commodities agrícolas que entram na Europa. Um novo estudo de caso da Proforest, conduzido em parceria com a RMR Consulting e com apoio da GIZ, mostra que a segregação das cadeias de fornecimento pode levar, de forma não intencional, ao aumento das emissões de transporte na produção de soja no Brasil.
O desafio da rastreabilidade
A cadeia de suprimento da soja no Brasil foi construída com foco em eficiência. Ao longo de décadas, a infraestrutura logística — desde rodovias e ferrovias até hidrovias e terminais portuários — foi otimizada para movimentar grandes volumes de soja ao menor custo possível, permitindo a mistura de produtos provenientes de múltiplos produtores e regiões. Isso não apenas permitiu ao Brasil sustentar elevados níveis de consumo doméstico de soja, mas também se tornar um grande exportador para mercados globais, incluindo China e Europa.
O EUDR impõe novas exigências a esse modelo ao requerer a segregação entre volumes conformes e não conformes. Em outras palavras, a soja em conformidade com o EUDR não pode ser misturada com volumes que não consigam demonstrar conformidade. Como resultado, os carregamentos de farelo de soja precisam ser fisicamente segregados ao longo de toda a cadeia de suprimento, da fazenda ao porto. Para traders acostumados a sistemas logísticos altamente integrados e com mistura de cargas, isso cria um desafio com implicações operacionais significativas.
Calculando os custos de carbono da segregação de commodities
A exigência do EUDR de produção livre de desmatamento não é a principal barreira operacional para a maioria dos traders. Como apenas um pequeno volume de soja produzida no Brasil não está livre de desmatamento, já é viável fornecer soja livre de desmatamento. No entanto, devido ao elevado ônus da prova e às exigências relacionadas de rastreabilidade e transparência previstas no EUDR, produtores que, na prática, estão em conformidade ainda enfrentarão dificuldades para fornecer os dados e a documentação necessários para atender a todos os requisitos da legislação. O outro desafio está na segregação física exigida por essas condições.
Para compreender melhor o impacto da segregação de volumes, modelamos três principais corredores de exportação do Brasil para a União Europeia, com base em um cenário real de um trader: via o porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul; o porto de Santos, em São Paulo; e o porto de Santarém, no Pará, com origem no Mato Grosso. Nem a rota de Rio Grande nem a de Santos estão atualmente equipadas para fornecer soja totalmente segregada e em conformidade com o EUDR. Em Rio Grande, há grande presença de pequenos produtores que vendem por meio de intermediários e cooperativas, dificultando a obtenção de dados de origem em nível de fazenda. Em Santos, ocorre mistura significativa entre traders no terminal ferroviário e dentro do próprio porto — um problema que não pode ser facilmente resolvido sem grandes modificações de infraestrutura ou colaboração entre traders.
O corredor de Santarém oferece um caminho mais viável para a conformidade. A predominância de grandes fazendas no Mato Grosso torna a rastreabilidade consideravelmente mais viável, e a unidade de processamento já possui linhas dedicadas de recebimento e armazenamento segregado capazes de suportar lotes conformes. Nossa análise conclui que, nas condições atuais, o trader provavelmente deslocaria 100% do farelo de soja destinado à União Europeia para a rota de Santarém, a fim de garantir conformidade com o EUDR de forma economicamente viável.
Uma Avaliação do Ciclo de Vida mostrou que, em um cenário totalmente segregado e em conformidade com o EUDR, as emissões de GEE relacionadas à logística seriam aproximadamente 48% maiores do que em condições de operação habituais. Isso ocorre devido às maiores distâncias e ao uso de modos de transporte com maior intensidade de carbono, resultantes da substituição do transporte ferroviário e hidroviário pelo transporte rodoviário. Isso indica um trade-off não intencional criado pela regulamentação — entre a ambição de reduzir danos ambientais e a realidade do aumento das emissões decorrentes do transporte de volumes segregados.
Implicações para o setor
Embora este estudo se baseie em um único trader, e mais pesquisas sejam necessárias, os resultados provavelmente são representativos do setor. Poucos traders atualmente operam cadeias de suprimento totalmente segregadas e em conformidade com o EUDR, e os custos operacionais, financeiros e de carbono dessa transição serão significativos em toda a indústria.
Para empresas e marcas que compram soja brasileira, esta análise reforça a necessidade de engajamento proativo com parceiros da cadeia de suprimento sobre caminhos para a conformidade — e de considerar as emissões logísticas ao avaliar a pegada ambiental total da conformidade com o EUDR.
Para formuladores de políticas públicas, os resultados destacam que as exigências de rastreabilidade podem empurrar cadeias de suprimento para rotas de transporte menos eficientes e com maiores emissões em determinados contextos. Também apontam para a necessidade de repensar qual nível de rastreabilidade é realmente útil para impulsionar ações contra o desmatamento nos mercados de commodities e representar uma alocação eficaz de recursos.
A Proforest apoia os objetivos do EUDR de reduzir o desmatamento ligado ao consumo da União Europeia e trabalha com empresas individuais para alcançá-los. No entanto, este estudo de caso indica que podem ser necessários maiores investimentos em infraestrutura e maior colaboração entre traders para superar emissões logísticas imprevistas. Consequências locais da conformidade em países produtores, como estas, também precisam ser comunicadas aos atores downstream para melhor informar o processo de tomada de decisão de formuladores de políticas e as decisões de compra de grandes operadores em países consumidores.
Leia o relatório completo (apenas em inglês): Logistics-Driven GHG Impacts in EUDR-Compliant Soy Supply Chains - A Case Study in Brazil (Proforest & RMR Consulting, maio de 2026, com apoio da GIZ).
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